quinta-feira, 22 de março de 2007




POETA SENIL

Um dia eu serei um poeta velho,
cansado da palavra,
mas cheio de poesia
guardada nos pés de tantos caminhos porque passei;
Cheio de nostalgias,
sentado na frente de uma casa do interior,
a sentir o vento, sem pressa, quase sem piscar.

Um poeta de cabelos brancos
e alma repleta de besouros, formigas:
lembranças vãs de um tempo fugídio.
E e correrão por mim, regatos mansos,
cantarão passarinhos,
e farão ninhos em meus cabelos,
delicados sabiás.

Um poeta cansado da palavra,
mas pleno de uma poesia
que já se inscreveu no meu corpo,
nas marcas de minhas mãos,
nas rugas do meu rosto,
na curvatura da coluna,
na insustentável leveza
de um ser de passos trópegos.

Um dia eu serei um poeta velho,
e haverá de brotar em mim,
frutos de um pomar que reguei
durante toda vida.

Viverão em mim
crianças encantadas numa noite de São João,
velhas fogueiras de um tempo frio...
E todos verão em meus olhos
a fina flor do existir,
desfraldando na saudade
de um tempo perpetuado em mim.

Um comentário:

Maria Muadié disse...

Ivan, estou contente com sua visita. Muito prazer em te conhecer.
Gostei muito de seu blog, e reparo que será doce a sua vida de poeta senil, doce como uma cocada puxa.
Um abraço,
Martha