sábado, 4 de agosto de 2007


ACOSTUMAVA

ACOMPANHAR O CIRCO.

UM DIA

ACOMPANHOU

MEU CORAÇÃO.

sexta-feira, 13 de abril de 2007


OUTRA CANÇÃO


A canção que escrevo
Não é bela nem feia,
Não é de sol nem de chuva,
É triste em qualquer dia,
Em qualquer estação.

Canção que não se diz,
Que não se canta,
Que não se declama,
Mas que se inscreve
Na veia fina do coração,
Na lápide fria dos ausentes.

A canção que escrevo
É a mesma que se sente
Na cólera,
Na ira dos condenados,
No ósculo de traição,
Na ingestão do veneno
E do antídoto.

Canção fúnebre e carnavalesca,
Máscara de Arlequim,
Punhal manchado de sangue,
Grito silencioso,
Música das horas interrompidas.

quinta-feira, 12 de abril de 2007


ATO DE ESCREVER



Eu escrevo

Como quem se suicida.

Como um tuberculoso:

escarrando mágoas.

Eu escrevo

como um filho faminto

que chora de madrugada

sobre o peito da mãe morta.

Como quem revê velhas cicatrizes.

quinta-feira, 29 de março de 2007




ENSAIO DA MORTE


Ele mora
no vigésimo andar,
e em noites tempestuosas,
ele pensa em se atirar.
A traição
lhe deixou um coração ferido
e uma vontade estranha
de morrer pelas entranhas.
Seu pai
calcula os lucros do dia,
sua mãe toca piano,
sua irmã, no banheiro,
ensaia passos de dança...
Ele trancado no quarto,
se envenena com ácidos e calmantes.
Discos e livros na estante.
A tartaruga alimentada,
plantas regadas.
Rituais do dia, cumpridos.
Tudo em ordem,
e um coração ferido.
Ele mora perto do céu,
na solidão do seu quarto,
onde os anjos nem a luz
vêm lhe visitar.
Ele está só,
e seu pai calcula os juros do dia.
Sua mãe toca sem culpa.
E sua irmã, no banheiro,
a bailar,
a bailar,
a bailar,
a bailaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaar

quarta-feira, 28 de março de 2007


TRAMA


Na trama do silêncio
A aranha tece a teia.

Na trama da palavra,
O poeta tece o verso.

Na trama da noite
Os pervertidos
Inventam gozos.

Na trama da vida
O homem inventa
A armadilha.



PRA NÃO ESQUECER


Quando fores embora,
leva os discos,
os sapatos,
a velha máquina de escrever,
e dá um jeito de caber na mala
todo amor que não me deste.

SOLDADINHO DE CHUMBO

O amor,
árvore frondosa, frutífera,ainda em flor,
em plena primavera
tombou ao corte do machado do traidor.
Suas flores manchadas de sangue
bailaram no espaço da dor.
Tudo cessou, pássaros, manhã, formigas.
E do amor, sem seiva, sem raiz, sem força
pensou-se que nada restaria.
Infeliz machado afiado da traição
que no tronco robusto, sua lâmina fincou!
Seus braços que acariciavam,
feitos galhos que acolhem pássaros,
na fogueira queimaram.
Nas labaredas o amor derreteu-se,
tornou-se cinzas.
Depois de muito tempo,
encontraram entre restos de troncos queimados
um fruto vermelho em forma de coração
que ainda pulsava.

terça-feira, 27 de março de 2007

SACRÁRIO



Num cantinho da alma

há um raio de sol que guardei pra ti.

Uma asa de borboleta de uma infância antiga,

um besouro empalhado de uma tarde ensolarada.

Uma réstia de luz

quando ainda era quase noite num dia de inverno.

Há nesse cantinho,

uma canção de passarinho

que morreu cantando por amor,

com o coraçãozinho espetado no espinho de uma rosa vermelha.

Há um caminho estreito e florido

pra nós dois passearmos num dia de primavera.

E num pedacinho de um céu azul,

pipas coloridas dançam ao assovio do menino.

E tem um girassol dourado.

Tem uma palavra que nenhum poeta descobriu.

Tem um olhar sereno te olhando ternamente.

Ah, e tem também um lenço...





AVISO AOS DE FORA



Deixem que minha vida siga em passos lentos

como o velório que sobe a ladeira.

Que meus dias

desfraldem remendados

como os trapos dos varais da pobreza.

De mim não queiram nada,

a não ser a poesia calma,

plantada nesses olhos tristes.

Deixem que a minha vida tome o seu rumo.

O rumo do rio que segue o mesmo leito sempre,

mas nunca é o mesmo por onde passa.

Em minha aldeia vivem homens descrentes da vida

e meninos embalados pela canção da esperança

de uma vida que se renova sempre.


POSIÇÃO


Eu me coloco no mundo


como se colocam os bichos,


as árvores, os insetos,


os besouros e formigas.


As pedras, o vento, o silêncio...


( que silêncio?)


Sou parte dele.


Faço parte da sua unidade,


mais um elemento,


não importando se pensante ou não.


Pra mim, tudo que respira, pensa, sente.


Enjaulados estamos todos nós


nesse universo de mistérios.


Não há verdade absoluta que pertença a alguém.


Se alguém sabe, ainda não me disse,


ou ainda não me convenceu dela.


Eu amo os bons e os maus,


pois ninguém é absolutamente só alguma coisa.


Vivo pra correr todos os riscos,


pra assumir todas as culpas,


pra sofrer com todos os sentimentos...


Pra me dilacerar sempre


e me recompor sempre.


Se ninguém sai vivo daqui, que saiamos então


repletos de poesia, de amor,


de pedaços de tantos outros que nos compõem.


Eu sou todo mundo pra ser eu mesmo,


e na catedral infinita do universo,


me ajoelho e saúdo todos os bichos,


todas as coisas, todos os rios, todos os peixes,


todas as PESSOAS

segunda-feira, 26 de março de 2007




RECADO

Aos desavisados,


aos que não trazem nem rosas


nem poesia,


nem bomba,


nem maestria.


Aos vazios de peito, de alma,


de atrocidades e bondades.


As almas penadas, depenadas,


achatadas nas esquinas da vida alheia...


Aos coveiros de vivos,


as rapinas estripadoras de corações...


Aos cegos sem nenhum gosto nos olhos.


Aos cruéis, infiéis, menestréis da canção alheia...


Aos outros, esses que se alimentam de indiferenças,


me deixem em paz no meu pasto de burro,


na minha poesia de pedra,


na minha vidinha sem novidades,


no meu sexo sem véus,


no meu existir sem perdão.


Deixem-me que a minha vida é curta


e eu não tenho tempo pra alimentar


covardia e banalidades.

VIA-CRUCIS




Eu padeci alí na cruz do teu esquecimento,

coroado pelos espinhos do teu amor cruel,

crucificado no teu egoísmo,

amortalhado no sudário do teu descaso.

Via-crucis dos teus enganos percorri.

Carreguei o peso dos teus silêncios...

E por amor a mim,

ressuscitei-me livre de ti.

FORA DO CONTEXTO



Meu computador

Não reconhece a palavra oxente.

Não tem sugestão ortográfica

Para o termo “raio da silibrina”.

Desconhece as palavras rapadura,

Serrota, jumento, juá...

Sim, folha de juá, aquela com a qual

Minha mãe escovava os dentes.

Não sabe o que é pote, cacimba,

Candeeiro, quenga, cangalha,

Forquilha, maravalha.

Para a palavra arrodilha,

Pasmem!

Ele sugeriu “ arrolha ”

Mas que diabo é arrolha?

Arapuca, então, ele grifou

Com um vermelho mais forte.

E eu que pensava que o Nordeste

Estava inserido no contexto da globalização,

Senti-me DELETADO!


( publicado na Agenda da Tribo- SP 2007)




MANHÃ DE PEDRA


Desperta manhã!
Dura, lenta, mórbida,
Doída feito as mãos que já não te colhem.

Desce dos arrebóis
Das entranhas da noite,
Que meu amor já não vinga.

Desperta manhã!
Feito asas feridas, desperta.
Feito feto abortado, desperta.

Já é tarde
E meu coração fez-se pedra.
E o amor que se erguia feito girassol,
Perdeu as pétalas,
Murchou em tantas noites de descrenças.

Desperta manhã!
Revela meu coração em chagas,
Meus pulsos cortados,
O amor que morre lentamente por amor.

MARIA





De tão leve,

engravidou-se

de si mesma,

num repouso

de pouso leve

de pomba.

Púmbleo

fe-se o divino

nas suas entranhas de virgem.

E de tão pura

fez-se santa

para que o milagre,

do céu, descesse.

O verbo leve

fez-se carne,

ser iluminado.

ABRIGO DA MORTE



E a morte abrigará teu corpo.

E serás dela abrigo confortável.

Ela caberá perfeitamente

Em todos os teus cômodos.

E te fará morada sem receio,

Sendo ela a tua própria morada.

Abrigará tuas unhas,

Tua epiderme,

Dentro dos teus olhos que já não se abrem,

Entre teus dentes enrijecidos .

Em todo o teu corpo.

E a morte ficará ali, na decomposição da tua carne.

Junto ao teu esqueleto,

Junto ao teu último fio de cabelo,

Inseparadamente

No leito sepulcral onde dormirão tuas ilusões...

E a morte se fará viva em teu corpo morto.

Em tuas fotografias de homem morto.

Em tuas roupas de homem morto.

Em teus livros de homem morto.

Nas histórias de um homem morto...

domingo, 25 de março de 2007


LÂMINAS


Estrela de cinco pontas,

espada de Xangô,

lança de São Jorge,

cortai nessa noite os meus pulsos!

Arrancai de mim essa alma insana,

prisioneira do amor.

Furai meus olhos!

Dissipai meus sentidos!

Cortai em dois,

meu coração!

Trespassai meu peito,

para que nele adormeça essa dor.

TROPEL ALUCINADO


( 3º Lugar no Concurso Grandes Escritores da Bahia- Literis Editora - RJ )



Vai.

Vai tempo, embora.

Vai que já não tenho hora.

Vai.

Arrasta-me para o asilo

onde expõe tuas obras perfeitas.

Corre além dos ponteiros,

que meu coração é um relógio

que já não pulsa.

Sepulta bem distante a criança que não fui.

Carcoma os versos que não fiz.

Enferruja o tempo de minha geração dissipada.

Vai tempo.

Amadureça a história dos homens.

Vai, que sobre tia morte galopa

num tropel alucinado.

DA EXISTÊNCIA DE DEUS



Possa ser que Deus exista

em forma de beija-flor,

sugando o néctar envenenado das flores do mal.

Quem sabe,

ele não seja um rio que nunca é o mesmo,

onde se banham os devassos?

Possa ser que seja uma pedra,

bicho, flor, libélula, caracol,

uma andorinha sozinha

num dia de verão.

Quem sabe

Deus não seja um poeta

escrevendo certo em linhas tortas

versos de solidão?

Possa ser que Deus EXISTA!

ONDE SE ESCONDE



Solidão

Doendo dentro,

Bem dentro... ... ...

Onde se esconde a ausência.

Solidão Doida,

Doída,

Lá na saída

Por onde você fugiu.

Solidão roendo

Lá dentro,

Bem dentro,

O último osso da ausência.